sábado, 19 de abril de 2008

Insolência

Só pela necessidade de escrever.

"Agarrada ao travesseiro, piscou. Lentamente. Pensar que tudo se repetia era talvez uma forma de equacionar datas, beijos e promessas. E o fim. Amiúde intensa. De fato, era uma lógica que talvez explicasse o fim. De qualquer forma, era só um talvez. A incerteza do talvez. Mas agarrava-se a ela, com as unhas roídas, assim como agarrava-se ao travesseiro, que fosse só pela ilusão do abraço. Era só uma forma encontrada para facilitar aquilo, diminuir o aperto, a incerteza baseada em fatos. Continuava a raciocinar, o raciocínio nublado, meio frio, meio úmido. A umidade, e isso ela guardava para si, escorria pelo rosto. Mas todos naquele quarto sabiam, todas as coisas, as paredes e os livros. Esperavam a noite vir, e quando vinha, tudo era silêncio e escuridão pegajosa no quarto fechado. E era ai que eles sentiam que ela estava lá, equacionando, irracionalmente, toda encolhida na cama. Sozinha, óbvio. Solidão era a sensação mais adequada para o momento. Ouviam-na algumas vezes, e era angustiante. Mas ver, nunca. No fim, a incerteza é que salvava a situação. E fazia com que ela tivesse esperança. Doce ilusão. Santa inocência.
Apesar do talvez, uma coisa era fato. O sentimento sofria baixas. Profundas e dolorosas, se há a necessidade de explicar. Que pareciam pequenas e irrelevantes, mas que devastavam em silêncio, quietas. Baixas como aquelas sofridas pela Alemanha, quando a guerra começou a inclinar-se para o fim desastroso. Aos poucos, o espírito da coisa ia morrendo. As pessoas também, mas não aos poucos. Tais baixas, ela sabia, eram só um presságio, como um agouro, de que o fim estava próximo. Ela podia senti-lo, vibrante na equação que ela tinha na cabeça, detalhada, infalível. Sabia dos fatos, das datas, do que ele diria. Sabia o que sentiria, o que ouviria dele. A priori, já sabia que seria trocada. Ou que haveria outra desculpa pior, caso ele tentasse ser mais criativo. Mas não, não se encha de compaixão, nem tente. Ela não merece. A troca, o fim, as baixas, as desculpas desconexas, de tudo ela já estava ciente. A escolha foi dela. A esperança ínfima, de que talvez fosse diferente. Era o talvez. Doce ilusão. Santa inocência.
Insolente, não se deixou levar. Que o fim viesse, o estava encarando e não desviaria o olhar. Ela era assim, tinha de ser. Descomedida, imensa em sua pequenez. O Führer, você já sabe, foi até o fim. Foi-se, levou milhões. É assim, na guerra e no amor.
Mas a guerra me parece menos egoísta."

É só raciocinar um pouco.