quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Não era para eu estar aqui.

ela
Não era para eu estar aqui.
Faça o que quiser, mas não sorria assim. Não sorria, porque esses sorrisos seus, assim quando sorri e sorri simplesmente, são devastadores, únicos, destruidor de lares.
No plural não sei porque, já que é só você quem o tem, e só o vejo sorrir assim para mim - quanta modéstia.

Quanto aos lares, tanto faz, a muito não se vê um por essas bandas.
Assim mesmo, não devia eu ter vindo. Vim sim, por motivos que desconheço e não compreendo. O que nada me impede de ir por hora e agora, sem voltas para as sensações passadas.

ele
Vejo que a desconheço menos do que poderia eu prever após tantos aniversários ausente. O auto-controle, afinal, ainda é uma lacuna na sua lista de qualidades. E, percebo agora, depois desse seu sorriso sinceramente incrédulo, que essa lacuna converteu-se em uma de tuas mais encantadoras particularidades. Sorria, querida, isso foi um elogio.

O tempo só acentuou meu encanto por tuas manias e falta de nexo. Gosto disso em ti, gosto do sexo, da falta de ordem, de sentido, do teu jeito confuso de fingir que não me quer. O encanto entre nós dois vai passar ou amanhã ou depois ou semana que vem. Tu sabe, eu sei. Se não passar, eu é que vou embora.

Vem logo pra cama antes que a noite acabe.

Todos os livros do mundo.

Não era simplesmente por amar lê-los. Amar, sim, ela amava. Amava, todavia, mais forte e irresistivelmente as páginas e as letras enfileiradas e o cheiro de papel impresso. Amava-os mais por possuir, era afinal a posse que a encantava. Era preciso que ela os possuísse, preciso e necessário. Tê-los ao redor, encarando-a, empilhados como que aguardando pacientes pela escolha, que tinha mais prazer, prazer enorme, por ser difícil escolher.

Ninguém nunca a dissera que não poderia possuir todos, todos sem que sobrasse um só longe de suas asas, longe de seu olhar romântico, de todos os tipos, épocas e cores. Não havendo ninguém que a contrariasse, ninguém que ao menos provocasse a dúvida, ela, astuta e engenhosa que era, sucumbiu ao ímpeto de possuir. Possuir, já dito, era necessário. Mais que necessário, era imprecíndível! Interessante a necessidade da menina de possuir. Interessante sim, visto que ao que parece não era menina de caprichos. Se fosse, haviam todos de compreender, menina caprichosa que tudo quer e de tudo necessita. Não sendo, interessante era sim, comportar-se como se a existência dependesse de possuir, e ter e sentir todos. Todos os livros do mundo.

Inegável era que, de fato, olhava com mais carinho e respeito àqueles que carregavam consigo sonhos e histórias de tempos outrora vividos, agarrados a cada linha de prosa ou verso que, por determinação do próprio ofício, eternizava-os. As páginas por sua vez, que relação alguma tinham com esse dever intransferível das palavras, sofriam os efeitos do tempo. Eternas são as palavras, as páginas, a tinta envelhecida, nada de eterno possuem. Enfraquecem, desbotam, borram e por fim, se perdem. É no doce amarelar que o papel impõe respeito.

Nem por isso amava menos aos jovens, lívidos de saber novo e recente, reluzentes, cheios de vida e história para contar. Mesmo os maiores e mais respeitados livros tiveram num dia remoto seus tempos de juventude, quando se voava alto, sem o peso dos anos e das grandes epopéias nas costas.
Aprendera, aos poucos, a respeitar a doce ingenuidade das páginas imaculadas.

Acabava por concluir, aos poucos, com o acúmulo de livros e história e fatos vividos por outros, que por mais estranho que lhe parecesse a idéia, a vida era mais vida dentro das páginas, e as pessoas mais humanas sob efeito dos efeitos de linguagem.
Fez-se reticência, afinal.