quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dias inventados - parte I

"Estirada na cama, o sono não quisera vir. Só pensou consigo, as coisas que pensava sempre que as cortinas baixavam. Sempre a mesma nostalgia. Queria que aquele fim de semana perdido tivesse durado a eternidade - mas quem disse que não durou? Ai quem me dera, se toda loucura fosse doce como aquela. Começavam a se perder no tempo os detalhes do pedacinho de céu que vivera anos antes. Escreveu, como sempre, porque foi preciso."
No meio do caos, da confusão, das coisas vazias e sem sentido, aquelas horas haviam sido a exceção absoluta. Alguma coisa até parecia ter importância.
A casa, o cachorro, as roupas penduradas no varal. O calor absurdo que fazia durante o dia, e o calor próprio das noites em claro. O sorriso tão puro, meu deus, tão puro. E tudo absolutamente simples, corriqueiro, comum. Até ela parecia fazer parte da paisagem, encaixava-se perfeitamente na vidinha mansa de interior, na conversa a toa da família.
Prometera que iria, e foi. A relação não era lá tudo isso, que merecesse as seis horas na estrada - mas havia quem discordasse. Enfim, ela foi. Não havia nada a perder, além das coisas sem importância do seu dia-a-dia.
A cidade se abria tímida, havia um circo na entrada. Uma tenda colorida e até parecia festa de criança. Ele a esperava sorrindo na rodoviária, sorrindo tanto, e um abraço enorme. Ali ela deixou sua vida morna guardada na mala, e entrou de vez na vida dele. Era pequena, encaixou-se fácil.
A noite era só deles, a saudade, a sintonia - tudo conspirava a favor. Nada poderia ser mais certo que os dois rindo de si mesmos. A alegria da surpresa da presença. Até a cama parecia acolher a menina como sua segunda dona. Dormir não era necessário, mas havia o sentimento estranho de duas pessoas que gostariam de acordar juntas. O fim de semana seguira assim, entre lanches na cozinha e noites em claro.
Ela não aprendera a destrancar a porta do banheiro e de alguma forma conseguia se prender em todas as tentativas. Mas a casa em si parecia íntima e conhecida, de um jeito encantador. Ele tivera que ir à faculdade e a deixara na casa com a mãe. As duas conversaram bobagens, mansamente. A mulher falara da família, de si mesma, de sonhos, desejos e conquistas. Até mostrara à menina as bonequinhas de e.v.a. que aprendera a fazer. O diálogo tão fácil, a conversa tão simples - pareciam conhecer-se há anos. Tiraram e dobraram as roupas do varal juntas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O único jeito é
escrever.
até tenho outras coisas a fazer
várias
inúmeras
me sufocando
mas não funciona
não acontece, não importa
o único jeito é
escrever.

Li outro dia em algum lugar sem importância
que uma vida vazia pesa muito
é
pesa infinitamente
acho que vazio inclui ausência
ausência pesa
pesa e doi
incomoda porque é falta
é a essência do vazio, a ausência

superficial
vidas superficiais são vazias
é quase a mesma coisa
os dias são genéricos
os bom dias são automáticos
as pessoas aparecem e somem e os sorrisos são todos iguais
as palavras são ensaiadas
o carinho é temporário
vem rápido, e passa igual.
quando vem.


isso tudo e solidão
um monte de gente que não significa nada
palavras inúmeras que não valem uma única sílaba.

ridículo.

situação ridícula. deprimente.
porque o que é que se faz com ausência?
com presença incômoda a gente resolve
manda embora
rápido fácil indolor
e ausência?

o que é que se faz quando falta alguma coisa
quando falta quase tudo?