segunda-feira, 30 de junho de 2008

Não faz mal.

Diálogo de sexta à noite.
Lua crescente, noite fria, janela aberta, short verde novo.

-Qual o problema?
-Você me evitar assim, é definitivamente um problema.
-Do computador.
-Hum, certo, computador... é... não sei bem. O que eu disse no telefone?
-Não disse.
(Cara de retardada)
-Ah, foi. Bom, que tem um problema, de fato tem. Juro. Só tenho que descobrir qual é, um minutinho.
Silêncio.
-Como anda a vida?
-Descobriu?
-O que? Das vacas da faculdade? Da sua vida nova?
-O problema do computador.
-Ah não, esse não. Ainda não. Senta ai.
-Estou bem assim. Deixa que eu dou uma olhada.
-Você tá com pressa? Quer água?
-Não, obrigada. Acho que tá tudo certo, né?
-Tudo certo? Comigo? Ah...mais ou menos.
-Com o computador. É..acho que já vou.

...

Algumas meias-palavras ditas e outras não ditas, algumas monossílabas,uns olhares sem foco, a ausência do olhar, e tudo se perdeu.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Domingo



"..Mas saiba que pré-ocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra."



Domingos são dias estranhos. Estranhamente exaustivos. Dias nos quais deveríamos descansar mas que não descansamos por estarmos muito ocupados pensando no quanto estaremos ocupados no dia seguinte. Não muito raramente o dia termina sem que tenhamos ao menos parado de pensar nos problemas que nos seguem até em casa e se alojam no sofá, na mesa de jantar, no quarto. Ou mesmo aqueles problemas que já moram lá.
Enquanto o domingo é pré-ocupado com os problemas da segunda-feira, o sábado é dedicado aos problemas da sexta, que por sua vez parecem infindáveis e insolúveis, mesmo com a eminência teórica da paz e do calor do fim de semana utópico o homem do século XXI. Com o fim da utopia inatingível dos dias não-úteis, as coisas se tornam diferentes. Agora não são pré-ocupações, mas sim ocupações pré-ocupantes, urgentes e desesperadas. A segunda-feira já amanhece com o peso de toda uma semana de trabalho incessante, problemas insolucionáveis e minutos que duram segundos. Mas o pior de todas as sensações é a de que é apenas o começo. A terça e a quarta-feira parecem nascer com um sol mais brilhante e leve, com a sensação já conhecida de que a semana já se foi pela metade. A felicidade, como era de se esperar, dura pouco. Logo se pensa: E daí? Dali a quatro dias começará outra. E outra, e mais outra depois. São noventa e seis horas, alguns milhares de minutos, outras dezenas de milhares de segundos. É factual. Repetitivo. Incessante. Lascinante. Nas dezenas de milhares, você pára de pensar. É que são números demais para o meio da semana, talvez volte a contar no sábado, quando estará mais livre. Depois dos números, quando volta a reparar o sol, ele já se pôs. E a quinta-feira surge assim, meio morna. E você abre os olhos listando seus problemas, escova os dentes calculando os horários, e conclui amargamente, enquanto o café esfria na cozinha, que não há tempo suficiente. No dia seguinte, com o acumulo de insuficiência temporal, pensa antes de abrir os olhos, abre os olhos antes de acordar, dispensa o café antes de escovar os dentes, esquece alguma coisa em cima da mesa, perde as chaves, deixa de almoçar, trabalha o dia inteiro e não faz nada, mas sorri exausto no fim da tarde. É sexta-feira, afinal. Permite-se agora mergulhar na utopia do fim de semana. São somente pré-ocupações.