quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Verão

Os dois olharam para o céu. Sentados na areia fina como o sal no mar, as ondas indo e vindo, nada mais parecia ter qualquer relevância. A lua surgia mansa no horizonte e o céu tornava-se cada vez mais escuro. Fora um dia ensolarado, morno. O mesmo calor que aquecia os dois corpos na praia. A dúvida e o medo encurralavam o menino, que se contentava com olhares sorrateiros e o brilho nos olhos ternos da garota. À ela, cabia esperar e torcer para que o rubor e a rigidez inevitáveis de seu corpo não afugentassem a sombra de coragem que vira passar pelos olhos do amigo. Os dois temiam. Ambos desejavam.
O espetáculo era lá, entre os poucos centímetros que havia entre os dois e que ainda precisavam ser superados. A lua clara no céu pouco importava, poderia estar chovendo e os dois permaneceriam ali, lutando contra os próprios receios.
A luz que vinha do céu desenhava formas e cores no mar, uma imagem estarrecedora, mas entre os dois havia um espetáculo à parte. A cada instante ele sentia pesar mais e mais a dolorosa certeza do arrependimento futuro por não agir. Ela sentia que, cada vez mais, a noite perdia a chance de ser perfeita. Mas nenhum dos dois ousaria interromper aquele momento mágico.
A lua parecia se soltar do mar com relutância, e naquele instante os dois sentiram que o tempo poderia parar. Que aquele calafrio poderia ser eterno. Que o mundo parara de girar. Os dedos do garoto estavam entrelaçados a mão dela e com certo receio e docilidade ela sorria para ele. Um sorriso sincero. Manso. Cúmplice. Começou a pensar o que tornara a presença do amigo tão essencial. Não soube dizer.
Ele segurou-a mais firme pela mão. Percebeu que se encaixavam perfeitamente, como que se completavam, forjadas como duas metades. O céu parecia mais bonito do que em toda a noite para a menina, e o garoto parecia muito mais próximo agora.
Olhou as estrelas e viu reclinar-se docemente sobre o ombro ao seu lado. Para os dois, nada mais seria necessário. Nem aquela noite, nem os próximos dias teriam qualquer importância.
A vida já atingira a perfeição.

2 comentários:

Anônimo disse...

A leitura é de fácil discernimento e ao mesmo tempo é bonitas e singela.Quando estamos lendo parece que está acontecendo o fato, pois a narração nos surpreende com o irreal ao real.

natan andrade disse...

" [...] e um momento de júbilo intenso, não seria o suficiente para inundar toda uma vida?"