"Agarrada ao travesseiro, piscou. Lentamente. Pensar que tudo se repetia era talvez uma forma de equacionar datas, beijos e promessas. E o fim. Amiúde intensa. De fato, era uma lógica que talvez explicasse o fim. De qualquer forma, era só um talvez. A incerteza do talvez. Mas agarrava-se a ela, com as unhas roídas, assim como agarrava-se ao travesseiro, que fosse só pela ilusão do abraço. Era só uma forma encontrada para facilitar aquilo, diminuir o aperto, a incerteza baseada em fatos. Continuava a raciocinar, o raciocínio nublado, meio frio, meio úmido. A umidade, e isso ela guardava para si, escorria pelo rosto. Mas todos naquele quarto sabiam, todas as coisas, as paredes e os livros. Esperavam a noite vir, e quando vinha, tudo era silêncio e escuridão pegajosa no quarto fechado. E era ai que eles sentiam que ela estava lá, equacionando, irracionalmente, toda encolhida na cama. Sozinha, óbvio. Solidão era a sensação mais adequada para o momento. Ouviam-na algumas vezes, e era angustiante. Mas ver, nunca. No fim, a incerteza é que salvava a situação. E fazia com que ela tivesse esperança. Doce ilusão. Santa inocência.
Apesar do talvez, uma coisa era fato. O sentimento sofria baixas. Profundas e dolorosas, se há a necessidade de explicar. Que pareciam pequenas e irrelevantes, mas que devastavam em silêncio, quietas. Baixas como aquelas sofridas pela Alemanha, quando a guerra começou a inclinar-se para o fim desastroso. Aos poucos, o espírito da coisa ia morrendo. As pessoas também, mas não aos poucos. Tais baixas, ela sabia, eram só um presságio, como um agouro, de que o fim estava próximo. Ela podia senti-lo, vibrante na equação que ela tinha na cabeça, detalhada, infalível. Sabia dos fatos, das datas, do que ele diria. Sabia o que sentiria, o que ouviria dele. A priori, já sabia que seria trocada. Ou que haveria outra desculpa pior, caso ele tentasse ser mais criativo. Mas não, não se encha de compaixão, nem tente. Ela não merece. A troca, o fim, as baixas, as desculpas desconexas, de tudo ela já estava ciente. A escolha foi dela. A esperança ínfima, de que talvez fosse diferente. Era o talvez. Doce ilusão. Santa inocência.
Insolente, não se deixou levar. Que o fim viesse, o estava encarando e não desviaria o olhar. Ela era assim, tinha de ser. Descomedida, imensa em sua pequenez. O Führer, você já sabe, foi até o fim. Foi-se, levou milhões. É assim, na guerra e no amor.
Apesar do talvez, uma coisa era fato. O sentimento sofria baixas. Profundas e dolorosas, se há a necessidade de explicar. Que pareciam pequenas e irrelevantes, mas que devastavam em silêncio, quietas. Baixas como aquelas sofridas pela Alemanha, quando a guerra começou a inclinar-se para o fim desastroso. Aos poucos, o espírito da coisa ia morrendo. As pessoas também, mas não aos poucos. Tais baixas, ela sabia, eram só um presságio, como um agouro, de que o fim estava próximo. Ela podia senti-lo, vibrante na equação que ela tinha na cabeça, detalhada, infalível. Sabia dos fatos, das datas, do que ele diria. Sabia o que sentiria, o que ouviria dele. A priori, já sabia que seria trocada. Ou que haveria outra desculpa pior, caso ele tentasse ser mais criativo. Mas não, não se encha de compaixão, nem tente. Ela não merece. A troca, o fim, as baixas, as desculpas desconexas, de tudo ela já estava ciente. A escolha foi dela. A esperança ínfima, de que talvez fosse diferente. Era o talvez. Doce ilusão. Santa inocência.
Insolente, não se deixou levar. Que o fim viesse, o estava encarando e não desviaria o olhar. Ela era assim, tinha de ser. Descomedida, imensa em sua pequenez. O Führer, você já sabe, foi até o fim. Foi-se, levou milhões. É assim, na guerra e no amor.
Mas a guerra me parece menos egoísta."
É só raciocinar um pouco.
2 comentários:
Primeirooo!!!!
Cada vez que eu leio um texto seu eu me convenço de que eu ainda preciso melhorar muito. Cada parágrafo, cada detalhe, uma obra de arte. Só pela necessidade de escrever...
O que ela guardava para si? Por que guardar? Baixas? Sempre há um motivo para as baixas...
BjooOO
Belicioso por natureza. Atacar faz parte dos instintos. Ser capaz de ser inimigo...
Realmente, o amor é uma guerra e a menos egoísta das cousas.
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