E é quando o tempo pára e as vozes se calam que ouve-se a saudade. Saudade não grita, não se sacode, não te incomoda todo o tempo em todo lugar. A saudade é mais como uma coisa pequena escondida e tímida. Quieta enquanto o mundo ao redor grita e se move. Enquanto se está fora do próprio mundo e dentro do mundo alheio. Enquanto finge-se que não é o que é e torna-se aquilo outro, e sente-se aquilo que não se sente na verdade, e o coração bate num ritmo que não é o seu.
Mas espera, espera o mundo calar-se. Espera que, desprevenido, entre no próprio mundo e recolha-se na sua poltrona particular em frente a lareira. Espera que façam silêncio e todos vão-se embora. Espera que a festa acabe, desliguem o som e tomem o último gole. Espera que as cortinas se fechem e a platéia se vá.
É quando o espatáculo chega ao fim que as luzes se apagam e a solidão toma conta. A saudade na verdade não vive sem a solidão. Porque saudade por si só é somente sentimento gostoso de nostalgia pela sensação sentida noutros dias. A outra saudade é a que se junta à solidão e derruba.
Num jogo rápido, xeque-mate.
E não há escolha, não há abrigo, a saudade é só sua e não há forma de fugir de si mesmo.
3 comentários:
Gostei.
saudade é coisa estranha..
começa não sei quando, dá não sei por que e machuca sem saber.
Muito bom seu texto!
INCRÍVEL seu texto
Um dos melhores, sobre saudade, que eu já li. Parabéns!
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