segunda-feira, 15 de março de 2010

Dias Inventados - parte II

"Não que houvesse assim tanto tempo entre o primeiro sorriso e os inúmeros beijos daquele fim de semana. Havia, na verdade, um ínfimo intervalo de tempo, que se convertera em eternidade. Não era ele, a relação, a circunstância. Ela até pensou, a princípio, que fosse. Sem ilusões, sem fantasias, via em toda a loucura de ambos uma proximidade interessante. Na falta de complexidade da relação um encanto, uma possibilidade. Eles se gostavam, simplesmente. E era só isso, não havia mais. Não havia dúvidas, promessas, cobranças. Era só uma situação de encantamento circunstancial muito divertida de se viver. Mas não, não era a leveza da relação. A magia daqueles dias estava simplesmente na beleza de estar com alguém. Nas nuances claras da harmonia. Até parecia dar certo. Isso era novo. Era diferente. Nunca houvera nada parecido em seus relacionamentos superficiais.
Difícil é entender como algo tão simples, cotidiano, pode trazer tanta alegria. O equilíbrio, o café-da-manhã, os fins de semana ociosos. Esses fatos rotineiros insignificantes para a maioria. Era só o que ela queria, mesmo que nada daquilo combinasse muito com sua vida conturbada. Era na verdade a harmonia que lhe faltava."

A tarde andaram de caminhão - situação necessária. Por que, é a pergunta. Tanto faz, eles sabiam se divertir juntos. Era como um começo de relação eterno, em que tudo é motivo de graça. Até colheram acerolas no pé. Gosto agridoce da frutinha vermelha. No quarto, em frente ao espelho, ela se arrumava. As roupas espalhadas, a mala aberta. Qualquer um acreditaria que aquele era seu habitat natural, qual era sua familiaridade com o ambiente. Até mesmo os dois, em oportunidades anteriores, desenvolveram uma intimidade peculiar, que se refletia no quarto, na cama, nos passeios de caminhão. O fim de semana chegara ao fim. Sim, porque a semana começaria em seguida, e com ela a rotina massacrante, a realidade, a vida de cada um. Chegara ao fim com um adeus na rodoviária, melancolismo e a peculiar sensação de que nunca mais viveriam coisa parecida juntos - ela tinha certeza. Pegou de volta na mala o vazio da vida solitária O mais dolorido era constatar sua incapacidade de sustentar a própria solidão. Sua evidente dependência estampada na felicidade a dois. Se parecia amor, sim, talvez. Se era? Ninguém nunca pôde responder - ela mesma preferiu não se perguntar. Mas talvez tenha sido aquele dias o que mais se aproximou. Um excerto de poesia, um pedacinho de vida, sim, amor poderia ser isso. Circunstância, situação.

Não se engane. Isso não é um conto de fadas. Não é novela, não é romance do século XIX. É a realidade bem fria de uma mulher que sabe ser sozinha. Que sabe fazer as coisas erradas, e erra com altíssimo sucesso. Que se retira das vidas alheias para evitar maiores aborrecimentos, por medo de situações futuras. Ou simplesmente por sua inconsequência incorrigível - que fosse. Ela era boa em estragar tudo. E estragou, como sempre. Independente disso, não havia futuro para esse casal aparentemente certo. Eles sabiam. Não faziam planos, não esperavam muito mais do que cada dia - ao menos naquele fim de semana. O fim começa no começo. Quando o envolvimento é mais do que o hoje, é mais do que o agora. Quando começa surge a certeza de que vai acabar. E daí? Relacionamentos acabam, de fato, como anterior, como o próximo. Talvez se eles não tivessem começado, aqueles dias seriam os únicos e só aquela seria a lembrança feliz.

Enfim, é claro que inventei tudo isso.
Loucuras impensadas, sábados em família?
Cidades de interior? Felicidade? Harmonia?
Não se iluda, essas coisas não existem.

2 comentários:

Fernando Marinho disse...

O texto ficou uma montanha russa de sentimentos. Do amor à solidão no tempo de um suspiro. Mas são assim mesmo, as loucuras impensadas, os sábados em família, cidades de interior, a felicidade, harmonia.... tempo de um suspiro.
beijo ;*

Anônimo disse...

Quem dera, se os dias inventados, pelo menos por um instante, pudessem se tornar reais, para que pelo menos a sensação de felicidade pudessem atingir o meu rosto, quando isso acontecer poderei falar que sei o que é ter felicidade.